Carta da DEA ao Rio Gera Crise Diplomática e Alerta Sobre Soberania Brasileira
O cenário político brasileiro ganhou um novo fator de tensão nesta semana com a revelação de uma carta enviada pelo governo dos Estados Unidos ao estado do Rio de Janeiro, assinada por James Sparks, representante da DEA (Drug Enforcement Administration). O documento, datado de terça-feira (4), foi endereçado ao secretário de Segurança Pública do Rio, Victor dos Santos, e ofereceu “apoio irrestrito” no combate ao narcotráfico — uma iniciativa que, na prática, contorna os canais diplomáticos oficiais do governo federal.
A correspondência, divulgada pela coluna do jornalista Paulo Cappelli, do Metrópoles, veio em tom cordial, mas levantou suspeitas de interferência externa em assuntos internos do Brasil. No texto, Sparks presta condolências pelas mortes de quatro policiais durante a Operação Contenção, no Complexo do Alemão, e elogia a “coragem e o sacrifício” das forças fluminenses. O trecho mais delicado, porém, é o que promete “qualquer apoio que se faça necessário” — uma formulação ambígua que, segundo analistas, abre margem para ações diretas dos EUA em território brasileiro sob o argumento de cooperação.
Aproximação de Cláudio Castro com os EUA e a Agenda Trumpista
O episódio ocorre em meio à crescente aproximação do governador Cláudio Castro (PL) com o grupo político de Donald Trump. Fontes do Palácio Guanabara confirmaram que Castro tem articulado, de forma independente, uma ofensiva diplomática para convencer o Departamento de Estado norte-americano a classificar o Comando Vermelho como organização narcoterrorista.
A manobra é considerada sem precedentes e altamente controversa. De acordo com a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, um relatório detalhado com informações sobre o tráfico no Rio de Janeiro já teria sido enviado à Casa Branca, sem o conhecimento ou participação do Itamaraty ou da Polícia Federal.
Especialistas alertam que essa iniciativa pode violar a Constituição Federal, que estabelece que a condução da política externa é prerrogativa exclusiva da União. Isso significa que governadores não têm autoridade para negociar diretamente com governos estrangeiros, solicitar sanções internacionais ou firmar compromissos diplomáticos. Fontes ligadas ao Itamaraty classificaram o gesto como uma “grave extrapolação de competências”, com potencial para criar um conflito institucional sem precedentes.
Riscos Jurídicos e Repercussões Internacionais
Diplomatas e juristas em Brasília demonstraram profunda preocupação com o teor da carta e com o movimento de Castro. Um diplomata ouvido pela Revista Fórum afirmou que o contato direto com Washington pode gerar efeitos colaterais perigosos, como o bloqueio de ativos de empresas brasileiras no exterior e até incursões estrangeiras em território nacional, sob o pretexto de combate ao narcoterrorismo.
As referências a experiências anteriores dos Estados Unidos em outros países acendem ainda mais o alerta. Nos últimos anos, Washington utilizou argumentos semelhantes para justificar sanções e operações militares na Venezuela — sob o pretexto de enfrentar o grupo Tren de Aragua — e no México, em ações contra o cartel Los Zetas. Para especialistas, a repetição desse modelo no Brasil representaria um grave precedente de ingerência internacional em temas de segurança pública.
“Quando um governador estabelece relações diretas com uma potência estrangeira sobre temas sensíveis como segurança e narcotráfico, ele enfraquece o próprio Estado brasileiro”, avaliou um professor de Direito Constitucional ouvido pelo Metrópoles. “É uma porta aberta para a tutela externa e um precedente perigoso para o federalismo.”
Silêncio do Planalto e Debate Sobre Autonomia Estadual
Até o momento, o Palácio do Planalto mantém silêncio sobre o caso. Nenhum pronunciamento oficial foi feito, mas fontes próximas ao Ministério das Relações Exteriores afirmam que a situação está sendo acompanhada “com preocupação e cautela diplomática”. O Itamaraty, segundo interlocutores, considera que o contato direto entre um governo estadual e uma agência federal norte-americana viola protocolos diplomáticos básicos e compromete a unidade da política externa brasileira.
Nos bastidores, há receio de que a iniciativa de Castro crie fissuras internas e incentive outros governadores a buscar parcerias diretas com potências estrangeiras, em temas que deveriam ser tratados exclusivamente pela União. Tal movimento poderia fragmentar a diplomacia brasileira, gerando um mosaico de agendas regionais desconectadas da política externa nacional.
Soberania em Xeque: Cooperação ou Interferência?
A carta da DEA ao governo do Rio levanta uma questão central: até que ponto a cooperação internacional pode coexistir com a soberania nacional? Para parte dos analistas, a oferta de apoio dos EUA soa mais como um gesto de interferência velada do que como colaboração legítima.
Embora a guerra urbana no Rio de Janeiro seja um problema real e urgente, a busca por soluções fora dos canais institucionais pode ter efeitos duradouros sobre a autonomia brasileira. O gesto de Cláudio Castro, mesmo que motivado por razões de segurança pública, coloca em xeque o controle do Estado brasileiro sobre suas próprias políticas internas.
Mais do que um simples atrito entre governos, o episódio revela uma disputa silenciosa sobre quem define os rumos da segurança e da diplomacia no país. Entre condolências e promessas de apoio, a carta da DEA expôs um dilema que o Brasil acreditava já ter superado: a tentação da tutela estrangeira sobre problemas nacionais.
