A repercussão do desfile da Acadêmicos de Niterói no Sambódromo do Rio de Janeiro ganhou novos contornos nesta segunda-feira (16), após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro se pronunciar publicamente sobre a apresentação que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A manifestação ampliou um debate que já mobilizava redes sociais, lideranças políticas e representantes religiosos desde o encerramento do desfile.
Críticas à ala “Neoconservadores em conserva”
O ponto central da crítica foi uma ala específica da escola, intitulada “Neoconservadores em conserva”. Nela, integrantes desfilaram com fantasias em formato de latas, representando, segundo a proposta artística da agremiação, setores identificados como neoconservadores — incluindo grupos evangélicos e defensores de uma visão tradicional de família.
De acordo com a descrição oficial do enredo, a ala simbolizava posições políticas associadas à defesa de pautas como privatizações, mudanças nas regras trabalhistas e a valorização de um modelo familiar composto por homem, mulher e filhos. O número 22, estampado como parte da composição, também chamou atenção por remeter ao número de urna do Partido Liberal (PL), legenda ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A leitura, porém, foi diversa. Para parte do público, tratou-se de uma crítica satírica dentro da tradição carnavalesca. Para outros, a representação extrapolou o limite da liberdade artística e atingiu diretamente valores religiosos.
Fé cristã e laicidade do Estado
Em publicação nos stories do Instagram, Michelle Bolsonaro afirmou que a fé cristã teria sido exposta ao que classificou como escárnio “em nome da cultura travestida de politicagem”. Cristã declarada, ela questionou o que considera ser a linha tênue entre liberdade de expressão artística e respeito às crenças religiosas.
A ex-primeira-dama citou o princípio constitucional da laicidade do Estado, argumentando que o fato de o Brasil ser um país laico não autoriza, segundo suas palavras, zombaria ou humilhação de manifestações de fé. Para ela, a crítica política não deveria atingir símbolos ou convicções religiosas compartilhadas por milhões de brasileiros.
O posicionamento rapidamente ganhou tração nas redes sociais, com apoiadores reforçando o discurso de que a apresentação teria desrespeitado evangélicos. Por outro lado, defensores da escola destacaram que o Carnaval historicamente utiliza sátira, ironia e alegorias para comentar temas sociais e políticos.
Comparações e reação política
Michelle também adotou um tom comparativo ao questionar como seria a reação caso a sátira tivesse outro direcionamento político, em referência indireta ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ela, o conteúdo do desfile era conhecido previamente e, ainda assim, teria sido autorizado.
Na avaliação da ex-primeira-dama, milhões de brasileiros se sentiram ofendidos pela representação levada à avenida. Ao final de sua manifestação, ela pediu que a Frente Parlamentar Evangélica se posicionasse oficialmente sobre o episódio, sugerindo que o caso mereceria repúdio institucional.
A fala provocou discussões entre parlamentares e lideranças religiosas, que passaram a debater possíveis desdobramentos no âmbito político. Ainda não há definição sobre medidas concretas, mas o tema já integra a pauta de conversas nos bastidores do Congresso.
Carnaval, política e polarização
O episódio evidencia como o Carnaval, além de ser um dos maiores espetáculos culturais do país, também funciona como espaço de expressão política e ideológica. Ao longo da história, escolas de samba frequentemente abordaram temas ligados a desigualdade social, críticas ao poder e debates culturais.
No caso da Acadêmicos de Niterói, o enredo que homenageou Lula buscou narrar sua trajetória política sob uma perspectiva simbólica e crítica aos adversários ideológicos. Para apoiadores, trata-se de exercício legítimo de liberdade artística. Para críticos, houve extrapolação ao atingir segmentos religiosos.
A controvérsia revela, mais uma vez, o grau de polarização que marca o cenário nacional. A avenida, tradicional palco de criatividade e irreverência, tornou-se também espaço de embate simbólico entre diferentes visões de mundo.
Enquanto o debate segue nas redes sociais e nos corredores do poder, o episódio reforça que manifestações culturais continuam desempenhando papel central na arena pública brasileira — seja como instrumento de celebração, crítica ou disputa narrativa.

