O que Bolsonaro disse a aliados sobre o desfile de Lula na Sapucaí

O ex-presidente Jair Bolsonaro voltou ao centro do debate político nesta semana, mesmo distante dos palanques e dos grandes eventos públicos. Em conversa com aliados que o visitaram na quarta-feira, 18 de fevereiro, na Papudinha, em Brasília, ele comentou o desfile que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Marquês de Sapucaí.

Segundo relato do senador Carlos Portinho, que esteve com Bolsonaro na Quarta-Feira de Cinzas, o ex-presidente afirmou que, se a situação fosse inversa, a reação da Justiça Eleitoral poderia ser diferente. “Imagina se fosse comigo? Ficaria inelegível antes da eleição, vergonha”, teria declarado. A frase rapidamente ganhou repercussão nos bastidores políticos e nas redes sociais.

Justiça Eleitoral e o limite entre cultura e propaganda

A fala faz referência direta ao papel do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão responsável por fiscalizar o processo eleitoral no país. Antes mesmo do Carnaval, o tribunal já havia se manifestado publicamente no sentido de que homenagens culturais estão inseridas no campo da liberdade de expressão artística.

Ao mesmo tempo, o TSE ressaltou que manifestações culturais não podem servir como atalho para propaganda eleitoral fora do período permitido por lei. Esse equilíbrio delicado entre liberdade artística e regras eleitorais é o que tem pautado o debate desde que o desfile ganhou notoriedade nacional.

A discussão ocorre em um contexto pré-eleitoral. Embora 2026 ainda esteja distante no calendário formal, os movimentos políticos já começam a se intensificar, e qualquer gesto simbólico ganha interpretação estratégica.

O desfile da Acadêmicos de Niterói e a repercussão

O enredo que gerou a reação partiu da Acadêmicos de Niterói, que levou para a avenida uma narrativa celebrando a trajetória política de Lula. Em meio a alegorias e alas coreografadas, a escola apresentou momentos que exaltavam a origem operária do presidente e sua caminhada até o Palácio do Planalto.

Em um dos trechos do desfile, uma ala trouxe uma representação caricata de Bolsonaro, dentro da linguagem artística tradicional do Carnaval carioca. Como é comum na Marquês de Sapucaí, exageros visuais, metáforas e críticas simbólicas fizeram parte do espetáculo.

A cena viralizou rapidamente. Vídeos circularam em ritmo acelerado nas redes sociais, alimentando debates entre apoiadores e críticos de ambos os lados. Para aliados de Bolsonaro, a homenagem ultrapassaria o campo cultural e poderia configurar promoção eleitoral antecipada.

Reação política e movimentações no Rio

Entre as lideranças que reagiram ao episódio está o senador Flávio Bolsonaro, que acionou a Justiça Eleitoral sob o argumento de que o desfile poderia caracterizar propaganda fora do prazo legal. A iniciativa reforça a estratégia de judicialização que tem marcado disputas recentes no cenário político brasileiro.

Durante a visita à Papudinha, Bolsonaro e Portinho também discutiram o cenário político do Rio de Janeiro. O Partido Liberal (PL) precisa definir sua estratégia para a sucessão do governador Cláudio Castro, que não poderá disputar novo mandato.

Além da corrida ao governo estadual, o partido avalia a formação da chapa ao Senado. Uma das vagas tende a ser destinada a Castro. A outra, inicialmente associada a Flávio Bolsonaro, ficou indefinida após o senador sinalizar interesse em voos mais altos, mirando uma eventual candidatura ao Planalto.

Nesse contexto, Portinho busca consolidar seu espaço dentro da legenda. Nos bastidores, o clima é de cálculo político. Cada declaração pública é analisada sob a lente eleitoral, e cada gesto pode influenciar alianças futuras.

Carnaval como espelho da política nacional

O episódio evidencia como o Carnaval continua sendo um espaço de manifestação política e social no Brasil. Historicamente, escolas de samba já abordaram temas ligados a desigualdade, corrupção, democracia e direitos civis. A avenida, mais do que palco de festa, funciona como termômetro da sociedade.

A diferença agora está no timing. Com o país já projetando 2026, qualquer narrativa pública envolvendo lideranças nacionais ganha dimensão eleitoral. O comentário de Bolsonaro sobre o desfile não foi apenas uma reação a uma alegoria carnavalesca; ele dialoga com a narrativa de tratamento desigual que o ex-presidente e seus aliados vêm sustentando.

Ao mesmo tempo, a resposta do TSE reafirma a necessidade de separar expressão cultural de propaganda política formal. O equilíbrio entre esses dois campos será testado com frequência nos próximos anos.

Entre fantasias, carros alegóricos e sambas-enredo, a Marquês de Sapucaí mostrou mais uma vez que reflete as tensões do país. E, ao que tudo indica, o debate sobre os limites entre arte e política ainda deve render novos capítulos no cenário nacional.

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